Poética ambiental


A poesia é um dos meios mais eficazes e sensíveis para falar de natureza, de meio-ambiente, de Gaia ou Pachamama, por isso, nesse espaço, ela rolará solta!

 

 

1. 

O poeta e a lama do rio Amargo

Carlos Drummond de Andrade


 
 
Manet - O tocador de pífaro - 1886
Édouard Manet (1832-1883), francês, O tocador de pífaro (1886)




LIRA ITABIRANA

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

(...)

Quantas toneladas exportamos
              De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
              Sem berro?

          Publicado no jornal O Cometa Itabirano, n. 58, dez/1983



Manet - Ferrovia
Manet, Ferrovia (1873)




ITABIRA

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.

          De Alguma Poesia (1930)




Manet - No conservatório - 1878-79
Manet, No conservatório (1878-79)




A MONTANHA PULVERIZADA

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

Era coisa dos índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é sua vista e contemplá-la.

De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.

Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
— o trem maior do mundo, tomem nota —
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

          De Menino Antigo (Boitempo-II), 1973




Manet - Cigana fumando cigarro - 1862
Manet, Cigana fumando cigarro (1862)




O MAIOR TREM DO MUNDO

O maior trem do mundo
leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra
para o Canadá
leva minha terra
para o Japão.

O maior trem do mundo
puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição.

O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo,
meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando vai sumindo
e um dia, eu sei, não voltará
pois nem terra nem coração existem mais.

           Publicado no jornal O Cometa Itabirano, n. 69, ago/1984




Manet - Bar no Folies Bergère
Manet, Bar no Folies Bergère (1882)




CANTO MINERAL

        (excertos)



Minas Gerais
minerais
minas de Minas
demais,
de menos?
minas exploradas
no duplo, no múltiplo
sem-sentido,
minas esgotadas
a suor e ais,
minas de mil
e uma noites presas
do fisco, do fausto,
da farra; do fim.

(...)

(Ai, que me arrependo
— me perdoa, Minas —
de ter vendido
na bacia das almas
meu lençol de hematita
ao louro da estranja
e de ter construído
filosoficamente
meu castelo urbano
sobre a jazida
de sonhos minérios.
Me arrependo e vendo.)

(...)

Do rude Cauê,
a TNT aplainado,
resta o postal
na gaveta saudosista,
enquanto milhares
milhafres
de vagões vorazes
levam para longe
a pedra azul guardada
para tua torre
para teu império
postergado sempre.

(...)

Minas, nos ares,
Minas que te quero
Minas que te perco
e torno a ganhar-te
com seres metal
diluído em genes,
com seres aço
de minha couraça,
Minas que me feres
com pontiagudas
lascas de minério
e laminados de ironia,
vês?
No coração do manganês
pousa uma escritura
de hipoteca e usura
e o banco solerte
praticando a arte
do cifrão mais forte.

(...)

          De As Impurezas do Branco (1974)

Fonte do texto acima: http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet345.htm

 

2. Link de apresentação de Poesia completa, de Manoel de Barros.

 

http://recursos.bertrand.pt/recurso?&id=9976318

 

3. Conheça o poema ‘profético’ de Drummond sobre desastre no Rio Doce

Em ‘Lira Itabirana’, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) critica o efeito da mineração em seu estado natal: “O Rio? É doce / A Vale? Amarga / Ai, antes fosse / Mais leve a carga”.Confira o poema completo

Por Redação

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Em meio a tantas notícias e comentários sobre a tragédia em torno do Rio Doce, contaminado por uma enxurrada de lama desde o rompimento de barragens da mineradora Samarco, um poema tem viralizado nas redes sociais. É Lira Itabirana, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

Os versos carregam um tom profético ao criticarem o efeito da mineração no estado natal do poeta. Drummond nasceu em Itabira, mesma cidade em que surgiu a Vale do Rio Doce, em 1942. A empresa, junto com a anglo australiana BHP Billiton, é dona da Samarco, responsável por este que já é considerado o maior desastre ambiental da história do país.

Confira o poema abaixo:

I
O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais

E multinacionais,
Quantos ais!
III
A dívida interna.

A dívida externa
A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos

De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Foto de capa: Divulgação

 

Site da notícia: http://www.revistaforum.com.br/2015/11/22/conheca-o-poema-profetico-de-drummond-sobre-desastre-no-rio-doce/

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